Sincronia e diacronia na poesia brasileira contemporânea: uma análise geomorfosemiológica
certos poetas nunca foram ao arizona,
muitos nunca viram a neve (ou o fogo),
outros desconhecem um naufrágio
há também aqueles que nunca acordam no meio
da noite assim como existem os que nunca
adormecem antes do amanhecer
nesse ponto a pergunta: como fazer poesia
sem ter ido a varsóvia, timphu ou qualquer
outra meca de poetas, pouso
imprescindível para bardos de todos os povos
de todos os tempos?
que desconheçam a neve, que evitem naufrágios
(em último caso sempre substituíveis
por acessórios ao alcance das mãos)
o que não se pode ignorar é a tentativa
de muitos esforçados (muitos são,
de fato, esforçados) em ultrapassar certos limites,
seus ou/e dos outros, sempre
em direção à terra sagrada, servindo de impulso
e nutrição a tantos famintos
para aqueles que não conhecem o caribe,
a nicarágua, a cisjordânia e adjacências,
certos conselhos fatalmente seriam interpretados
de maneira errônea e indesejável, sobretudo
em circunstâncias onde pesem as desavenças
com o destino e os maus tratos da sorte
poetas em nenhuma hipótese deveriam se perder
em um bosque à noite, sob o risco de terem as mãos
amputadas e os pés atados por criaturas
estranhas à sua natureza
antes de mais nada, poetas deveriam cavalgar seus corcéis
pelas dóceis praias da catalunha, onde os sonhos
repousam em conchas depositadas a beira-mar e as ondas
são línguas líquidas lambendo as rochas
retomando o tema central da discussão
(que é, afinal, o que realmente importa)
seria por demasiado arbitrário que se escolhecem
palavras para compor uma paisagem,
sobretudo quando esta se encontra detrás
dos portões do condado de luxemburgo,
terra de bruxos, posseiros e esqueletos dançarinos
onde os fracos jamais saem de casa
entre o amanhecer e o pôr-do-sol
e caveiras fincadas nos postes
dão bom dia aos passantes
onde estátuas de sal dialogam com pombos
em praças circulares cobertas de relva
e ambulantes trajando fantasias insólitas
vendem pirulitos espiralados
isto posto, deveriam precipitar-se de vez no abismo
aqueles que não ceifaram tal paisagem
e penas mais brandas (embora exemplares)
deveriam ser aplicadas aos detratores da neve,
do fogo e dos naufrágios
fazendo-se ouvir uma última ressalva, neste ponto
tão necessária, em se tratando
de ambiente hostil e entremeado de espinhaços,
para que nenhum equívoco tenha sobrevida
e que a dúvida não logre alcançar seus pérfidos objetivos,
ó caubóis, ó miseráveis, ó moscas zombeteiras,
ó adoradores de serpentes, ó semi-deuses bailarinos das trevas,
ó escabrosas bocarras banguelas, línguas cobertas de crateras,
pelo sono que drena a morte,
pela chuva que cai e rola para os bueiros,
por todos os santos e a baía de guanabara,
eu por nós vos rogo:
não venham,
não fiquem,
não vão embora
muitos nunca viram a neve (ou o fogo),
outros desconhecem um naufrágio
há também aqueles que nunca acordam no meio
da noite assim como existem os que nunca
adormecem antes do amanhecer
nesse ponto a pergunta: como fazer poesia
sem ter ido a varsóvia, timphu ou qualquer
outra meca de poetas, pouso
imprescindível para bardos de todos os povos
de todos os tempos?
que desconheçam a neve, que evitem naufrágios
(em último caso sempre substituíveis
por acessórios ao alcance das mãos)
o que não se pode ignorar é a tentativa
de muitos esforçados (muitos são,
de fato, esforçados) em ultrapassar certos limites,
seus ou/e dos outros, sempre
em direção à terra sagrada, servindo de impulso
e nutrição a tantos famintos
para aqueles que não conhecem o caribe,
a nicarágua, a cisjordânia e adjacências,
certos conselhos fatalmente seriam interpretados
de maneira errônea e indesejável, sobretudo
em circunstâncias onde pesem as desavenças
com o destino e os maus tratos da sorte
poetas em nenhuma hipótese deveriam se perder
em um bosque à noite, sob o risco de terem as mãos
amputadas e os pés atados por criaturas
estranhas à sua natureza
antes de mais nada, poetas deveriam cavalgar seus corcéis
pelas dóceis praias da catalunha, onde os sonhos
repousam em conchas depositadas a beira-mar e as ondas
são línguas líquidas lambendo as rochas
retomando o tema central da discussão
(que é, afinal, o que realmente importa)
seria por demasiado arbitrário que se escolhecem
palavras para compor uma paisagem,
sobretudo quando esta se encontra detrás
dos portões do condado de luxemburgo,
terra de bruxos, posseiros e esqueletos dançarinos
onde os fracos jamais saem de casa
entre o amanhecer e o pôr-do-sol
e caveiras fincadas nos postes
dão bom dia aos passantes
onde estátuas de sal dialogam com pombos
em praças circulares cobertas de relva
e ambulantes trajando fantasias insólitas
vendem pirulitos espiralados
isto posto, deveriam precipitar-se de vez no abismo
aqueles que não ceifaram tal paisagem
e penas mais brandas (embora exemplares)
deveriam ser aplicadas aos detratores da neve,
do fogo e dos naufrágios
fazendo-se ouvir uma última ressalva, neste ponto
tão necessária, em se tratando
de ambiente hostil e entremeado de espinhaços,
para que nenhum equívoco tenha sobrevida
e que a dúvida não logre alcançar seus pérfidos objetivos,
ó caubóis, ó miseráveis, ó moscas zombeteiras,
ó adoradores de serpentes, ó semi-deuses bailarinos das trevas,
ó escabrosas bocarras banguelas, línguas cobertas de crateras,
pelo sono que drena a morte,
pela chuva que cai e rola para os bueiros,
por todos os santos e a baía de guanabara,
eu por nós vos rogo:
não venham,
não fiquem,
não vão embora



